quinta-feira, 15 de abril de 2010

O Nexo

Como num dia passa tão rápido a presença do momento,
Em frases sem nexo entendidas,
Solidões próprias,
Sem respostas.

E como mantemos nós o nexo em cada momento do dia!

Gente

Chamas!
Plasma quente que circula,
Estagnado no momento...
Forcas apertam o seio numa tosca liberdade.
A pomba branca,
Suja do tempo passar,
Voa perto, sem asas...
As pernas curtas caminham tortas,
As pedras do caminho enormes, bicudas...
Abraços que não se sentem
Em corpos inertes.

Sozinho, o homem do chapéu continua.
A passos largos encontra o rio que o leva ao mar sem paixão,
Que traz de volta a realidade obscura.

O som dos tambores, longe...
Gritos da gente que se deixa ficar, sofredora.
As luzes acesas sem iluminar, negras...

A cidade está fria,
A neve não cai...
A luz termina,
Mas o vento sopra!

Pormenor

Se eu fosse grande,
Ao ponto de chegar ao coração de quem mais quero,
Ao ponto de esticar o braço e tocar o Universo,
Ao ponto de amar menos e gozar o mesmo,
Ao ponto de ser quem sou sem rédeas...

Se eu fosse puro,
A fim de combater o mal com a palávra,
A fim de te amar em pleno e sentir tudo,
A fim de ter quem tenho e ser feliz...

Ao menos sou eu mesmo,
Com toda a grandeza e pureza que me sustém ,
A todo o ser de quem me quer sentir,
Sentindo tudo, amando mais e estando em pleno!

quinta-feira, 11 de março de 2010

Murmúrios

Som:
Vozes tontas gritam.
Cães ladram,
Alto... muito alto...

Sem som:
O calor do sangue a percorrer cada veia do teu corpo.
O amor nas hemácias.
O ódio nos leucócitos.
O cérebro...
Pensa...

Surdo.
Sem som.

Não surdo.
Som.

Preferia ser surdo...

Ilusão

Oh chuva lenta que cais do beiral,
Abasteces o meu coração na raiva sangrenta do presente,
Afastas o medo do futuro lavado
Lágrimas firmes num não querer chorar
Folhas vazias de um caderno preenchido,
Exausto
Tintas de aparo quebrado na inconstância viva da letra miudinha,
Célere vaguear estonteante nas mãos de poeta.

Cai chuva, cai!
Embeleza os campos de verde
Para que neles o meu amor se recoste,
Enche os rios de margens longas
Para que neles o meu amor se dilua,
Para que neles, eu, num só
Sinta o prazer da solidão...

E são nestas folhas de caderno
Breves
Onde em riscos largos me apoio
Escondendo a felicidade...

Amar

Se prescindisse do teu corpo,
Pele,
Sensação límpida de dois amantes,
Precisão tímida da mente humana!
Se de corpos falasses tu...

Quisera que abraços se confundissem
Beijos se confrontassem,
Carícias perdidas!...

Se do meu nome escrevesses AMAR,
Pedras rubras fugídas da falésia,
Onde o mar se escapa...

E se do nada
Sentimentos vagos
Se fizesse o meu querer
Veemente ideia
E nele o teu nome deixasse escrito,
Entre páginas sem fim
Brancas,
Pois no canto do meu sorriso
Lágrimas!...

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Chuva

O céu chora lá fora...

Será que fez mal a alguém?
Arrependimento...
Será que alguém lhe fez mal?
Tristeza...
Será que espera por alguma coisa?
Angústia...
Simplesmente chora...

A chuva dos meus olhos tão pouco almeja cair,
Queda-se na eterna profundez etérea do significado das coisas,
A sensação...
Aquilo que se sente, de tão leve toque se assemelha,
De tão pura gente se rodeia,
De tão solitário caminho se prolonga...

A lágrima cai agora...
Ácida!
Tempos lá vão onde havia mãos para a segurar,
Lábios onde se quedava na salgada experiência de um beijo,
Suave carícia a dois...
Neste momento de solidão, encravo-a!
Tranco-a com as sete chaves do destino,
Onde o futuro esmaga o meu presente
E o passado queimo-o nas mãos...

Nesta solidão prazenteira que não é de arrependimento,
Nem de tristeza
E nem de angústia,
É minha...
Já que de todos nada espero, ao menos deixo a minha pretensão de continuar a escrita criativa que a todos nos move, com o desprezo de um dia não haver dedos para a palavra, nem olhos para a leitura!!

Obrigado do fundo do coração a quem se digna a sentir-me inteiramente e sem pressupostos...

SS

Os Outros Em Mim

Desconcertado...
Estou livremente ausente das rédeas do pensamento.
A sensação vislumbra o espaço de futuro que me alcança,
Perco-me no vaguear intenso da eternidade,
Busca vã...
Prendo-me no esquecimento de um eu que já foi,
Gratuitos sorrisos furtivos, mascarados.
Gritos mudos de cabeças tortas em leves tons de pincel.
A tela está suja,
Não há harmonia nas cores,
Que pincel é este?
Tinta dura de tempos olvidada, enegrecida.
Fungos acres e asquerosos,
Mal se notam os brilhos próprios.
Não sei pintar, dei-me conta...
A ponta dos dedos dedilha o sinal efémero que um dia senti,
Chama intensa que ao apagar se queimou,
Incandescente luminária sem pavio, morta!
Rodeio-me daquilo que me faz pensar...
A palidez imortal das pessoas que passam,
Lá fora...
Fecho, trancadas, as sensações que um dia me levaram a nadar neste mar sem fundo,
Qual barco à deriva sem vela para orientar...
Sem vento a soprar...

E agora volto-me a mim.
Quedo na imensidão da escolha,
O céu é imenso!
Olho atrás e, sem pensar, descrevo rumos que ao certo não sei bem de quem são.
Meus? Nem por isso...
Onde cada um sente o inatingível, eu só sinto a música,
Esta alcança os meus dedos nas palavras que escrevo, nos sentimentos que me pintam.
A cor é minha, num tom que não se vê.
Tentas perscrutar, vá lá tenta!
Ao menos que seja isso...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Agora

Escondes o teu olhar por trás das sebes,
Esqueces um dia em que me olhaste de frente.
Escondes as mãos por trás das costas.
Esqueces um dia em que mas mostraste.
Escondes o teu cheiro num frasco de perfume intenso,
Esqueces um dia o cheiro da tua pele na minha.
Escondes as palavras de amor que me queres dizer,
Esqueces um dia que mas disseste.
Escondes anos de partilha que nos uniram,
Esqueces o dia que fomos um só.

E mostras agora o teu lado selvagem,
O puro...
O teu!
Aquele que sempre te esqueceste de esconder,
Aquele que eu não esquecerei nunca...

O Cerne

E que sentes tu?
Prazer imenso de neves brancas?
Não...
Muito leve...
Sol raiado de quente esperança?
Não...
Muito breve...
Passos longíquos de futuros alcançados?
Não...
Muito distante...
Músicas encantadas de coração sadio?
Não...
Muito gritante...
E que sentes tu?
Aquilo que não sinto eu...
Vagueante moribundo no nada...